FALHA NO SISTEMA


Quando eu estive na Maternidade, do outro lado do corredor, havia uma mãe que julgo eu ser mais nova do que eu. Pelo menos, assim me pareceu. Para além de
  se dirigir para os serviços de urgência  só 38 horas depois da rutura da bolsa das águas, alegando  que não sabia se estava ou não em trabalho de parto porque não saiu qualquer liquido pela vagina. Só teve um corrimento vaginal muito forte, segundo ela, na Maternidade a rapariga  após ser mãe continuou a demonstrar um desinteresse gigantesco pelo ser vivo que tinha acabado de dar à luz. Respondia abruptamente às médicas que nos acompanhavam, era mal-educada com as enfermeiras e achava que estava num hotel, uma vez que, chamava as auxiliares para que lhes tratassem da filha. 

Já eu, toda ligada pelo braço esquerdo e paralisada do direito, não podia fazer grande coisa, acho que constava no meu processo que ia precisar de ajuda das auxiliares devido à minha condição. E assim foi. Mesmo que eu conseguisse fazer alguma coisa, não estava em condições porque passei 4 dias ligada a receber ferro, sangue, antibióticos, etc, etc, etc...

Só consegui aprender a cuidar do meu menino em casa, adaptar-me, a ver o melhor jeito de fazer as coisas. Claro que sempre vou precisar de ajuda porque tenho um braço paralisado, para o mínimo que seja. Mas consigo passar um dia em casa sozinha com ele e fazer o que me compete como mãe, há coisas que faço de maneira diferente mas cada mãe é uma mãe e cada filho habitua-se ao jeito da sua mãe.

Além disso,  desde a minha estada na Maternidade até hoje, preocupo-me com o leite que toma, quantas tomas, se fez ou não cocó, as horas que dorme, as vitaminas que tem de tomar, quantas vezes é que toma banho, os cremes e tenho muita atenção às recomendações da enfermeira como da médica. Enfim, o básico que é exigido a uma mãe. Sou muito atenta a todos os pormenores.

Mas, já no último dia na Maternidade, duas das auxiliares acharam que tinham o direito de me dizer que eu tinha de fazer alguma coisa, que tinha de aprender a fazer e comentavam entre dentes que eu não fazia nada. Talvez, porque já estariam fartas de cuidar do meu bebé.

Na minha opinião, as enfermeiras têm a função  de  tratar, estimular as mães e tentar compreender futuramente como será, porque elas devem ter de informar o serviço social, julgo eu. No caso das auxiliares, na minha opinião, só têm o dever de obedecer àquilo que lhes é exigido. Se fosse porque eu não queria fazer como aquela outra mãe... mas o cenário era outro.

Fiquei com uma vontade louca de lhes responder com uma pergunta:

- Eu que estou toda ligada e tenho uma deficiência motora tenho que fazer alguma coisa e aquela rapariga que está além que não faz porque não quer, nem sequer sabe as horas do leite, não tem que fazer nada? Porquê que vocês vão fazer por ela? 

Mas aguentei-me, fiz-me de tola pela 10000000000000 vez na minha vida e continuei a olhar para elas como se eu não percebesse nada do que estavam a dizer até porque a enfermeira que me acompanhara naquele dia, já me tinha dito que eu ia ter alta à hora de almoço.

Eu sou a mãe que consigo ser e acho-me uma  mãe incrível. Sempre pensei que iria ser de paparicar o meu filho, mas não, dou-lhe todo o meu carinho, atenção, amor e cuidado mas sou muito prática. E não estou com lamúrias nem dou espaço para isso a ninguém. Não alimento doencinhas nem crenças de ninguém. É como eu digo e acabou. Hora do leite, tem de tomar 180 ml de leite, ele vai tomar 180 ml de leite e ponto final. Claro que tenho o cuidado de ver se está tudo bem com o bebé, por que não bebe tudo, se está indisposto... não enfio o biberão pela boca abaixo, mas também não desisto à primeira... é preciso ir ao ritmo dele, óbvio. Tem de levar vacinas, vai levar vacinas.  Claro que vai chorar, nós sabemos. E a mamã está aqui para lhe dar o colo.

Muito atenta a todos os pormenores, à saúde, à alimentação, à higiene, à qualidade de vida que lhe posso dar, porque amor e maternidade para mim não se traduz em andar com o filho no colo apregoando Meu rico filho!, e postando nas redes sociais ou a levar um bebé de 4 meses para todo o lado só porque me apetece laurear a pevide.

Para mim, traduz-se em algo maior, no quanto eu posso fazer por ele.

A falha no sistema que eu considero que existe é quando aquela mãe entrou naquela Maternidade com aquela atitude, os serviços sociais deviam ter sido logo avisados da atitude dela e a criança devia ter sido logo encaminhada para uma instituição ou família que a quisesse de facto, porque estão a permitir que mais uma criança seja maltratada por uma mãe que a não quer, até que esta lhe seja retirada. 

Mas não, a preocupação é  se alguém como eu  está apta(o) para cuidar de uma criança. Estou!! Pelo menos, cabeça, tronco e membros tenho.

E se eu tiver ajuda, será porque preciso e não porque não me importo. Como fazem as pessoas que trabalham sol a sol, as celebridades que têm vidas excêntricas, os empresários com 500 000 compromissos? Têm pessoas para isso, babysitter, empregados, uma equipa inteira para esse fim. E são menos pais por isso? Não! Só se é menos pai quando se limita a ser progenitor. E alguém que trabalhe arduamente todo o dia para dar o melhor ao seu filho, mas que ao final do dia, está ali com a sua criança, certamente, é pai. Ou alguém na minha condição, é pai. 

Eu sou mãe, mesmo que, às vezes precise ajuda.

Não me venham com tretas, com historinhas nem lengalengas do amor maior que o mundo,  há sim, pais dedicados mas tomara a muitas mães terem alguém que lhes fizesse o trabalho todo 24h sobre 24h que nem olhavam para os filhos. Oxalá que muitas escolas, creches e infantários abrissem aos feriados e fins de semana ou às 5h da manhã.


Tenho-o dito ou melhor escrito.

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